Ensaio Fotográfico – Carlos Aleixo – Parte 2

 

A algum tempo atrás eu publiquei aqui no site o ensaio do Carlos Aleixo. No dia das fotos eu quis chegar um pouco antes na locação para deixar tudo pronto, principalmente a questão da iluminação. Mas por eventualidades acabamos chegando no local quase no mesmo horário. Senti alguns sinais de nervosismo nele, então tentei correr para conseguir dar atenção ao Carlos o mais rápido possível enquanto os donos do espaço ainda estavam se arrumando para sair e nos deixar a sós.
Quando finalmente conseguimos ficar a sós eu consegui conversar melhor com ele. Em nossas conversas eu descobri que ele é psicólogo (especialista em Análise do Comportamento), o que me chamou muito atenção pois a Psicologia é uma área que me desperta imensa curiosidade. Depois de nos conhecermos melhor, iniciamos o ensaio onde eu coloquei algumas músicas para tocar e fui apresentar o espaço para ele enquanto tentava fazer ele se soltar mais.
Quando o ensaio foi publicado o Carlos enviou um texto maravilhoso contando como foi a experiência para ele, e é aqui que eu gostaria de agradecer à ele novamente por todo o carinho expresso no texto anterior. Desta vez decidimos publicar fotos inéditas do ensaio para acompanhar um novo material textual que o Carlos está enviando para o projeto Sereno Fotografia.
Gratidão, Carlos!

 


 

“Em sua obra “Walden II”, Skinner (1969), através de um romance utópico, expõe suas ideias para a solução de alguns problemas sociais, sugerindo o seguinte:

“Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente”.

Estas palavras aparecem na obra Walden II, uma novela norte-americana escrita em 1948 por Burrhus Ferederic Skinner, propositor do Behaviorismo Radical, abordagem que busca entender o comportamento em função das inter-relações entre a filogenética, o ambiente (cultura) e a história de vida do indivíduo.

Lançada pela editora Macmillan de Nova York, a obra apresenta uma comunidade onde não existia instituições seculares como Estado, Religião e Família. O código de Walden é abrangente e atua de modo não rígido, sem regras fixas e, desta forma, os valores morais e éticos seriam, ou não, reforçados apenas se forem úteis para a comunidade. É a descrição ou representação de qualquer lugar ou situações ideais onde vigorem normas e/ou instituições políticas altamente aperfeiçoadas.

Nessa sociedade o afeto, tolerância e frustrações são apresentados à criança gradualmente em doses generosas. Numa determinada passagem, a Sra. Nash, um membro da comunidade, falando sobre como as crianças são tratadas e educadas, diz: “Nossas crianças deitam em cima de um tecido plástico que absorve a umidade e pode ser limpo em um momento […] Roupas e cobertas são realmente um grande incômodo. Impedem os bebês de se exercitarem, forçam-nos a posturas desconfortáveis”. (SKINNER, 1978).

 

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Em 1953, Skinner lança Ciência e Comportamento Humano. Um dos conceitos no livro trata da questão do controle exercido pela sociedade como um todo, nos âmbitos do governo e lei, religião, educação, economia, cultura e psicoterapia, mostrando a diversidade das agências de controle, que limitam e controlam o comportamento humano.

Skinner enfatiza que o controle está presente em qualquer relação humana, manifestando-se em níveis e formas diversas. Ressalta que o controle tende a ser visto sempre como algo maléfico, mas que algumas formas de controle são benéficas e as quais não é possível escapar. Para ele, a luta para a liberdade tem sido uma questão de libertar as pessoas do que se chama de controle aversivo.

A agência de controle mais óbvia que procura controlar o comportamento humano é o governo, que utiliza instrumentos como reforço e punição para exercer o controle ético sobre seus membros. No governo organizado a tarefa de punição é atribuída a grupos, como a polícia e os militares, que atuam por meio da força física.

Neste tipo de agência controladora os comportamentos são classificados entre “certo” ou “errado”, “legal” e “ilegal” cujo propósito é o reforço ético. Assim, o governo usa seu poder para “manter a paz” e inibir qualquer comportamento que prejudique outros membros do grupo. Vale-se de estímulos aversivos condicionados, geralmente por meio de regras e normas – Leis – que estabelecem o tipo de punição a ser aplicada e produzem sentimentos de vergonha ou “culpa” em quem as contraria. Esse mecanismo garantirá resposta compatível com o que agência espera do indivíduo. No entanto, o poder da agência governamental maior pode ser de natureza diferente, como uma educação apropriada, medidas econômicas ou pressão religiosa.

 

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Outra agência controladora que exerce significativa influência sobre os indivíduos é a religião.

O lugar da religião na vida moderna não pode ser claramente compreendido sem se considerar certos processos por ela empregados, apropriados para propósitos muito diferentes. Geralmente, termos como “superstição” e “magia” são aversivos porque se associam comumente a exploração das pessoas com fins egoístas ou com comportamentos ineficientes e pobremente organizados.

O controle que define uma agência religiosa no sentido mais restrito origina-se na pregoada conexão com o sobrenatural, através da qual a agência arranja ou altera certas contingências que acarretam boa ou má sorte no futuro imediato, ou benção eterna ou danação numa vida por vir.

Pode se consistir em um único indivíduo como o feiticeiro da tribo, que recorre a demonstrações de magia para provar seu poder de dar boa ou má sorte, ou em uma bem organizada igreja com documentos que provam que o poder de intervir no arranjo de contingências reforçador foi a ela confiado por uma autoridade supernatural.

A técnica principal e uma extensão do controle do grupo governamental. Classifica-se o comportamento, não simplesmente como “bom” e “mau”, “legal” e “ilegal”, mas como “moral” e “imoral” ou “virtuoso” e “pecaminoso”.

A agência pune o comportamento pecaminoso de um modo que gera automaticamente uma condição aversiva que o indivíduo descreve como um “sentimento de pecado”. As agencias religiosas mais provavelmente favorecem a censura de filmes, peças e livros, o enforcamento das leis que governem a modéstia no vestir, a proibição da venda de bebidas alcoólicas, etc., porque essas medidas reduzem as ocasiões para o comportamento pecaminoso.

O comportamento sexual e controlado pelo grupo, principalmente em certas situações competitivas, a agência religiosa pode encorajar a castidade e o celibato como um programa geral e pode tolerar o comportamento sexual no casamento só com o propósito de procriação.

Quando se condiciona um indivíduo através de procedimentos éticos e religiosos para “evitar a tentação” para eliminar estímulos que de outra forma conduziriam ao comportamento errado ou pecaminoso – seus esforços podem ser tão extensos que afetem também outras pessoas. Freud chamou o resultado de “formação de reação”. Se o controle econômico ou coercivo não parece ser importante, seu fervor pode ser inusitadamente conspícuo.

 

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O sistema educacional também é considerado uma agência de controle do comportamento humano. Considera-se a educação o estabelecimento de comportamentos que poderão ser vantajosos para o indivíduo e para todos os outros em um tempo futuro. Por ser uma agência de controle organizada, a educação se preocupa mais com a aquisição de comportamentos do que com sua manutenção. Ela prepara o indivíduo para situações que ele ainda não experimentou.

Quando se compreende e se aceita alguém, repito o que esse alguém disse ou me comporto de forma a imitá-lo. A família ensina o indivíduo a andar, falar, comer, se vestir, e usa reforçadores primários como com alimento, água, aquecimento, abrigo, além de atenção afeto, aceitação. Os comportamentos são classificados como certo ou errado e assim reforçados de acordo com o sistema sociocultural.

Pensando como uma ação geral de que os comportamentos ensinados determinarão o agir no futuro, o controle educacional é fundamental, pois a única agência capaz de mudar o quadro de comportamento errôneo existente seria a educação, porém até mesmo ela precisaria de alguns ajustes nos quais envolveriam algumas práticas éticas conscientes que garantiriam a melhora da espécie humana.

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A agência econômica: O poder de dominação está com quem detém o maior número de bens e dinheiro, pode ser um indivíduo, uma indústria ou o governo, o que o define é o uso que é feito desse controle, que pode ser usado de versas formas dispondo suas riquezas no apoio de ação social, nas artes, ciência, ou por razões pessoais. As agências religiosas e governamentais as vezes usam essa forma de controle para seu próprio bem. Aumentando ou preservando sua fonte de poder ou para controlar o comportamento dos que os ameaçam, esta é chamada de “capital”. O estudo dessas agências requer exames que representem o controle harmônico e efeitos de retroação que mantém seus procedimentos.

 

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A cultura é outra agência poderosa de controle social e individual. A cultura na qual um indivíduo nasce é composta de inúmeras variáveis que o afetam e são dispostas por outras pessoas. Os procedimentos do grupo ocorrem de acordo com seus valores e determinam o comportamento ético, seus usos e costumes e formam o ambiente social.

As práticas culturais vantajosas tenderão a ser as características dos grupos que sobrevivem e perpetuam suas práticas, enquanto outras são consideradas letais direcionando o grupo para a extinção.

Skinner afirma: “Um ambiente físico e cultural diferente fará um homem diferente e melhor.”

 

Finalmente temos a psicoterapia como agência de controle. Vivemos em uma sociedade pautada por significativos avanços tecnológicos que produziram inúmeras facilidades para nosso dia-a-dia. Contraditoriamente convivemos, ao mesmo tempo, com estigmas e estereótipos que envolvem os agrupamentos sociais.

Certos subprodutos do controle exercido pelo grupo e pelas agências controladoras que foram mencionadas aqui podem resultar em desvantagens para o controlador e, muitas vezes, podem ser prejudiciais tanto para o indivíduo quanto para o grupo, principalmente quando o controle é excessivo ou inconsistente.

Segundo Skinner, “O controle atua, quer se tenha consciência dele ou não.

Desconhecê-lo é deixar a sua operação nas mãos do outro; conhecê-lo permite a opção. (…) não podemos escolher um gênero de vida no qual não haja controle. Podemos, tão só, mudar as condições controladoras.”

 

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A questão moral básica não está em discutir se o comportamento do homem está submetido ao controle, mas por quem, por que meios e para que fins.

Skinner afirma ainda que o comportamento inconveniente para o próprio indivíduo, ou para outros, geralmente requer tratamento. Ao invés de deixar este tratamento para amigos, pais, conhecidos ou representantes das outras agências controladoras que emitem simples “bons conselhos”, a psicoterapia vem como agência especial que se preocupa com esse problema e deve estar preparada para direcionar o homem no sentido de que ele se torne consciente da forma como vem se relacionando com o mundo.

Neste sentido, ele afirma: “O autoconhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento”.

Escrevi este texto, pensando nas diversas formas de controle a que estamos submetidos, principalmente sobre as pressões que sofremos no dia-a-dia a respeito de nossos próprios corpos. Exercer o direito de lidar com nosso corpo de forma a aceitá-lo como ele se apresenta em cada fase de nossa vida é uma forma de exercer um contracontrole de enfrentamento contra a tirania dos padrões impostos pelas regras e padrões de uma sociedade pautada pela normativa de uma estética pasteurizada. Desejo a todos e todas uma boa reflexão.”

Carlos Aleixo

 

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