O medo de tirar a roupa

Medo de tirar a roupa? Este já foi um dos meus piores pesadelos. Sempre fui meio gordinho, meio desengonçado. Assim como minha sexualidade, meu corpo era um bom motivo para bullying e piadas incômodas, muitas destas piadas foram dentro de casa. Ter vergonha do corpo com que nasceu é algo que já vivi muito intensamente na pele. Me lembro com clareza de como, desde a infância e adolescência, cada nova fase do desenvolvimento do meu corpo foi motivo de muito medo para mim.

 

Medo de tirar a roupa e autoestima

As fotos deste post foram produzidas pelo fotógrafo Eric Nunes.

Influência da família

Lembro-me, por exemplo, de como me senti mal e feio quando pelos começaram a aparecer pelo meu corpo, principalmente na fase da puberdade. Me sentia traído pelo meu próprio corpo. Como aquele corpo podia fazer aquilo comigo? Me dar mais motivos para as outras pessoas zoarem comigo? Como eu me senti mal com aquilo. Por um tempo até cheguei a raspá-los. Claro que a reação da família, que já me condenava por ser gay, não foi receptiva. Minha casa nunca foi um refúgio. Nunca foi um lugar de paz.

Ao apenas cogitar me abrir e expressar o que sentia para a minha família, a imagem da cara nervosa e carrancuda do meu pai já vinha à minha mente instantaneamente, assim como as péssimas lembranças que tenho da minha relação com ele. Eu já logo imaginava ele brigando comigo por eu não gostar dos pelos que tinha no corpo. Ele diria: “Como assim um homem, macho, ‘não gostava dos pelos do corpo’? Tem que gostar, porra! É homem ou não é? Não criei filho para ser bicha, viado. Ai de você se eu te pegar chorando por causa disso de novo! Agora levanta!”
Medo de tirar a roupa e autoestima

Amizades tóxicas

Não… procurar ajuda dentro de casa sempre foi fora de cogitação.
Mas então o que fazer? Dentro de casa o que eu encontrava era o medo e a solidão. Mas e fora de casa? E os meus amigos? Será que eu poderia encontrar algum aconchego e aceitação entre eles? Será que entre as minhas amizades eu poderia pelo menos tentar ter um relacionamento menos odioso com meu corpo? É claro que eu tentei, e é claro que eu só encontrei mais motivos para ter medo de tirar a roupa.
Me lembro de uma tarde de calor em que eu caminhava com uma amiga no centro de Barueri, cidade vizinha à minha. Eu sempre passei muito calor, e este dia estava particularmente quente. Inocentemente eu decidi tirar a camiseta e logo a minha “amiga” gritou: “Ai Gui! Não acredito! Bota essa camiseta meo! Que coisa feia! Vão rir de você! Aí que vergonha! Rápido!”
Aquilo me feriu tanto. Uma ferida que engoli em seco e guardei pra mim. Nunca comentei como me senti naquela tarde. Rapidamente, me sentindo um lixo, com ainda mais medo de tirar a roupa perto de outras pessoas, coloquei de volta a camiseta e tentei fingir que estava tudo bem, enquanto que juntava todas as minhas forças para não deixar o choro transbordar para fora dos meus olhos.

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Palavras que ferem

Me recordo também de outra amizade que tive e que em nada contribuiu para a minha autoestima. Houve uma vez em que eu, o cara que eu namorava na época e este “amigo” fomos juntos fazer uma viagem à praia, onde acabamos nos hospedando os três juntos no mesmo quarto. A viagem foi maravilhosa, exceto pelas incontáveis piadas que este amigo soltava a respeito do meu corpo, na tentativa de contar vantagem para o corpo dele, que era definidinho.
Uma destas provocações foi quando estávamos nos preparando para ir pela primeira vez à praia. Fui colocar a sunga no banheiro, e ao sair lá veio aquela chuva de brincadeiras de mal gosto a respeito das minhas curvinhas a mais. Por fora acho que eu me mantive firme, mas por dentro aquilo me derrubou. A vontade de ir à praia havia sido destruída. Tudo o que eu queria era ficar sozinho no quarto, mais uma vez com aquele medo de tirar a roupa e ficar apenas de sunga com várias pessoas vendo. Por que as pessoas odiavam tanto meu corpo? Porque elas não poderiam simplesmente me deixar em paz? O que eu fiz para elas?
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Medo de me aproximar de pessoas

Guardar tanta coisa pra mim durante tanto tempo apenas me fez mal. Criei uma barreira enorme ao meu redor. O medo de me aproximar de pessoas era e é muito grande. O medo de paquerar era maior ainda. Após o término do meu namoro eu me vi sozinho e na situação de poder paquerar pessoas se eu quisesse. Mas quem disse que eu conseguia? Quem disse que eu tinha coragem? Quem se interessaria por alguém como eu? Quem se interessaria por alguém com um corpo igual aquele que eu tinha? Por que tentar se era certo que eu levaria um Não?
Sabe o que me ajudou a enfrentar o medo de tirar a roupa?
Muitas coisas. Entre estas coisas eu destaco duas:
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1: Meu trabalho com ensaio sensual masculino.

Eu já contei aqui no site da SerenoFotografia.com como comecei a trabalhar com fotografia sensual masculina e como isso ajudou muito na transformação da autoestima. A sensualidade masculina sempre me chamou muito a atenção. Sempre fui apaixonado por este tema e desde “muito cedo” (desde que a Fotografia entrou em minha vida, por volta de 2011) manifestei um interesse muito forte em trabalhar com este tema.
Minha sexualidade, que já foi motivo de muita dor no meu passado e ainda é um pouco hoje em dia, foi uma grande motivadora para eu ter começado a trabalhar com isso. Hoje eu sinto que toda a repressão e bullying que vivi por se gay apenas reforçou a vontade que sentia de trabalhar com aquilo que me movia, a sensualidade do corpo masculino.
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A Beleza é relativa, e o “Padrão” é para poucos

Com a grande diversidade de pessoas que fotografei e ainda fotografo, fui percebendo como “ser gostoso” é algo completamente relativo. Apesar de um sistema gigante e massivo tentando nos convencer de que precisamos disso e daquilo para termos o “corpo ideal” e sermos desejáveis, todos somos humanos, nossa espécie é gigantesca em número e extremamente diversa. O inalcançável padrão de beleza não representa nem 10% dos indivíduos da nossa espécie. Por que diabos eu iria ficar me matando pra seguir um padrão? Por que continuaria me sentindo mal com aquilo?
Nenhuma transformação é fácil e rápida. Mas daquele momento em diante uma coisa era certa para mim. Eu havia tomado CONSCIÊNCIA de quem realmente sou e onde mais ou menos eu me encaixo na diversidade de belezas que existe. Acho que este é um ponto importante a ser considerado: tomar consciência de quem você realmente é. Parar de fugir de você mesmo, fingindo ser alguém ou algo que você não é, e realmente se aceitar.
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Ter resistência é normal

“Ahhhh mas eu não consigo seguir por este caminho… não consigo aceitar meu corpo, só vou me sentir feliz quando mudar meu corpo, aí sim vou conseguir me aceitar…” é o discurso que já ouvi muitas vezes.
Ter resistência à mudanças é normal… Mas é preciso termos consciência de que verdadeiras mudanças devem ser feitas de dentro para fora. Tentar apenas corrigir defeitos no lado de fora não adianta. Se por dentro você não estiver equilibrado, você sempre encontrará novos defeitos para corrigir no lado de fora.
Uma coisa eu digo. O nosso corpo é o reflexo exato de como anda a nossa mente. A não aceitação do nosso corpo e de quem somos apenas nos gera insegurança, angústia e ANSIEDADE. Este sentimento é um verdadeiro veneno, e parece que ele está sempre presente quando não nos amamos e não nos aceitamos.
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Esta ansiedade provoca reações no corpo e na mente. Criamos o impulso de querer comer mais ao mesmo tempo em que temos cada vez menos disposição para sair de casa (e gastar as calorias daquilo que comemos). Não saímos de casa, e para aliviar a ansiedade, comemos mais. Olha que ciclo vicioso. E, se você se encontra em um ciclo vicioso como este, cabe a você romper este ciclo. Ninguém pode mudar a sua vida. Apenas você mesmo. Este é o Livre Arbítrio que a Bíblia tanto fala. As decisões que mudarão sua vida estão em suas mãos. Você pode escolher agir, ou continuar onde está.

2: Desapegar de pessoas tóxicas.

Como eu mencionei antes, já tive amizades que me contaminaram com muita energia negativa. Amizades que sempre estavam prontas para lançar palavras venenosas que sempre me feriam. Não posso culpar estas pessoas. Quando temos autoestima baixa e estamos imersos em muita insegurança, temos o impulso de tentar inferiorizar e ferir outras pessoas. Estamos sempre ansiosos, nervosos e em estado de guerra. Aquele que caminha para o sentido oposto, para o sentido do amor próprio, do autoconhecimento e da autoaceitação, está caminhando para um campo de paz. Quem está em paz não quer guerra com ninguém.
Há anos venho caminhando para este campo de paz, auto conhecimento e auto aceitação. Não é fácil. Não existe um “lá” para se chegar. É como tentar alcançar o horizonte da Terra. Não importa o quanto caminhemos, o horizonte nunca estará mais perto. Mas cada novo passo que damos é um progresso na nossa jornada. Cada novo passo é um avanço, uma evolução. O gostoso é olhar para trás e observar o quanto já progredimos nesta caminhada. E uma coisa que me ajudou muito foi me desapegar de algumas pessoas que me contaminavam com energias negativas, como por exemplo as duas pessoas que citei no início do texto.
Medo de tirar a roupa e autoestima

Quem são essas pessoas negativas?

É muito fácil identificar estas pessoas. São pessoas que estão sempre prontas para derrubar outras pessoas. Estão sempre prontas para diminuir os outros. Pessoas que estão sempre prontas para apontar os seus defeitos e te colocar para baixo. São pessoas que adoram o sarcasmo. Pessoas que estão sempre com o veneno escorrendo pelo canto da boca. Essas pessoas estão em um estado/momento da vida onde não possuem a capacidade de gerar o bem. Elas não possuem a capacidade de fazer os outros de ser sentirem bem. A autoestima dessas pessoas é tão baixa que somente inferiorizando outras pessoas que elas conseguem se sentir grandes.
Medo de tirar a roupa e autoestima
Conhece alguém assim? Corre! Corre pra longe! Corre pro outro lado. Vai viver a sua vida. Comece a trilhar o seu caminho rumo à paz. Neste caminho para a paz você encontrará outras pessoas que estão na mesma vibe que a sua e que também querem não só a sua evolução, mas a evolução de toda a humanidade, afinal, somos todos irmãos de espécie e vivemos todos no mesmo planetinha. No caminho para a paz você encontrará pessoas que estarão na mesma energia que você. A Energia da mudança. A energia da evolução. A energia de querer ser hoje alguém melhor do que você foi ontem. Melhor para os outros e para si mesmo.
Medo de tirar a roupa e autoestima

Tenha amor em si e seja a mudança

A vida é uma só, e curta de mais para gastarmos nosso precioso tempo permitindo que outras pessoas nos coloquem para baixo. Nesta breve vida temos que sempre tentar evoluir e avançar. O horizonte estará sempre distante, mas cada passo que damos é um avanço. Se queremos mudar o mundo, temos que começar por nós mesmos. Assim como precisamos ter água para matar a sede de outro ser, precisamos tem amor em nós mesmos antes de querermos amar outro ser ou espalhar amor pelo mundo.

As fotos deste post

Já faz algum tempo que ando preparando este texto. E enquanto o texto não ficava pronto, eu recebi o incrível convite do fotógrafo Eric Nunes para posar para um ensaio. É claro que eu fiquei imensamente feliz e aceitei na hora.

Bateu um friozinho na barriga durante o ensaio, pois ainda não atingi 100% de aceitação do meu próprio corpo. Mas acho que a lição da vida é esta. Tentar e tentar até conseguir. E cada tentativa nos deixa cada vez mais fortes. A cada tentativa nós damos um novo passo. E este ensaio que fiz com o Eric foi mais um passo nessa minha caminhada contra o medo de tirar a roupa e ser eu mesmo.

Algumas semanas se passaram desde o dia do ensaio, e quando eu estava quase terminando a edição deste texto para publicar, veio o lindo do Eric e disse que as fotos ficaram prontas! E aí eu pensei: Por que não usá-las para ilustrar o texto deste post?

Sou muito grato à você, Eric. Não sabe como foi importante para mim! Não tenho palavras para definir como eu amei cada foto. <3

E você? O que achou?

E aí? O que achou? Você também enfrenta problemas de autoestima e autoaceitação? Deixe o seu comentário! Ou nos envie a sua história para ser publicada na página Texto dos Leitores.

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