Qual é a sua cor?

O país da diversidade

Num país multicolorido, onde há uma mistura de raças e culturas, o Brasil é um dos países mais diversos do planeta, abrigando inúmeros povos em um imenso território de proporção continental. A colonização portuguesa em território indígena e a vinda forçada dos povos africanos contribuiu para que hoje tenhamos pessoas de tantas origens étnicas distintas. 

Uma forte imigração ocorrida no início do século XIX, trouxe italianos, alemães e suíços para trabalhar em atividades ligadas à agricultura e à pecuária. Em meados de 1908, japoneses desembarcaram no porto de Santos, dando início a uma diáspora contínua de asiáticos para povoar a porção sudeste e sul do país.

Essa mistura de povos deu origem a um país multicultural e, isso, em conjunto com os diferentes climas, vegetação e hábitos culinários é o que torna o Brasil um território de todos. Essa farofa cultural é, em teoria, combustível primordial para o estreitamento de laços, maiores possibilidades de empatia e diminuição das fronteiras interpessoais, fazendo com que sobrepujemos a nossa origem por um sentimento universal de comunhão entre a raça humana.

Bonito? Muito. Mas não é bem assim que as coisas acontecem.

Além do preto e do branco

Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de km2, o país do futebol é ainda o país das desigualdades. Nas grandes cidades, lindas paisagens urbanas enfeitam os bairros mais nobres, enquanto grande parte da população espreme-se em casebres mal construídos nas áreas periféricas. Essa população é, em sua grande maioria, negra. Os mesmos que há 150 anos atrás foram trazidos em embarcações fétidas e vendidos como mercadorias para o tataravô dos burgueses contemporâneos.

Essa configuração espacial da sociedade moderna só faz reafirmar que o nosso país está longe de ser modelo exemplar de uma sociedade justa e igualitária. E isso também se reflete nas condições de trabalho e oportunidades que são destinadas a essa parcela da população, que compõe os 56% do país, segundo dados do IBGE. 

A condição de subserviência, citada no texto anterior, é facilmente aplicável aos homens e mulheres que todos os dias enfrentam situações de racismo por não preencher os requisitos de beleza europeu e terem a cor da sua pele reduzida a estereótipos de tipos marginalizados. 

A fim de diminuir as barreiras que sustentam essa ideologia, a fotógrafa brasileira Angélica Dass, criou o projeto “Humanae” com o objetivo de catalogar os diferentes tons de pele existentes em nossa sociedade. Partindo da indagação inicial “Qual é a sua cor?”, Angélica recriou a escala de cores Pantone a partir do tom de pele de cada pessoa fotografada. 

Brasileira, casada com um espanhol de origem belga, ela diz que “somos além do preto e branco” e o seu projeto, além de ser um modo de protestar contra uma realidade mundial eurocentrista, também tem por objetivo reafirmar a beleza negra a partir de uma infinidade de tons de preto.

Iniciativas como esta podem ser cruciais para elevar a autoestima de tipos de beleza tido como não-padrão e para ceifar de vez a tentativa vã de seccionar as pessoas pela cor da pele, partindo de uma ótica segregadora, colonizadora e eugenista.

O retrato da realidade

Esse retrato factível de um preconceito que ainda perdura e resiste como uma doença da humanidade, um parasitismo em benefício de uma classe em detrimento de outra, tem se atenuado aos poucos com o aumento da força dos movimentos sociais e com a insurgência das políticas públicas em favor dos grupos minoritários. Além da atuação massiva da classe artística e dos veículos de comunicação.

Atentar para um problema que a sociedade insiste em jogar embaixo do tapete é enfatizar a nossa história e jamais fechar os olhos para os problemas que ainda são reais e latentes. É não esquecer de um passado recente vivendo sob a premissa da política da boa vizinhança, quando na verdade os direitos ainda não foram totalmente adquiridos e a igualdade ainda está longe de ser alcançada.

Quando começarmos a respeitar as diferenças de maneira significativa e a representatividade for uma máxima da cadeia produtiva mundial, quem sabe passaremos a viver em uma sociedade onde o ser humano é valorizado pelo que ele é, e seu local de origem e a cor da sua pele será apenas parte da sua história.

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Abaixo deixo algumas leituras enriquecedoras sobre o tema:

Projeto Humanae

http://www.angelicadass.com/humanae-work-in-progress/

O mal-estar da masculinidade negra contemporânea

http://justificando.cartacapital.com.br/2017/08/16/o-mal-estar-da-masculinidade-negra-contemporanea/

Sobre a solidão da mulher negra

https://www.geledes.org.br/sobre-a-solidao-da-mulher-negra/

A importância de Abdias do Nascimento para a história do Brasil

https://www.brasildefato.com.br/node/30472/


Ensaio Fotográfico - Rodrigo. Ensaio sensual masculino e nu artístico em São Paulo.Rodrigo Correia – Colunista da Sereno Fotografia

Neurocientista em formação, é um verdadeiro aficionado por temas que permeiam a psicologia e a sexualidade humanas. Descobriu na meditação uma maneira de encontrar a felicidade plena. Seus interesses em filosofia, cinema e literatura tentam sanar (ou estimular) as suas próprias inquietações. Leão com ascendente em Leão, aguarda ansiosamente pela chegada dos irmãos de outro planeta. Mais textos na página Papo Sereno.

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