A dinâmica dos relacionamentos

O amor como propriedade

Em tempos de modernidade e explosão tecnológica, é fascinante observar as mudanças ligadas à forma de se relacionar. Os ambientes públicos aos poucos vêm perdendo espaço para o meio virtual quando se trata do objetivo de buscar um parceiro. Talvez a correria do dia-a-dia e a facilidade de se ter o flerte ao alcance da mão, levou ao boom dos sites e aplicativos de relacionamento e transformou o interesse de ambas as partes em um simples “match”.

Tipos físicos semelhantes, localização geográfica ou simplesmente algoritmos desenvolvidos a partir dos interesses em comum? Uma dessas opções ou a soma de todas elas parece realmente ser o ponto de partida para o início de uma relação afetiva.

O que hoje parece uma opção simples à solidão e/ou ao desejo sexual latente não reflete um passado recente onde encontros casuais e inesperados figuravam como a única alternativa à proposta de relacionamento.

A facilidade dos tempos atuais permanece no cerne do paradoxo, onde as pessoas querem tudo e ao mesmo tempo nada. A esperança de se encontrar o amor digno de cinema construído sob influência dos modelos midiáticos e finais felizes de novela das 9, é cruelmente substituída pela mais perfeita solidão. Talvez um retrato pessimista desse narrador que vos fala, porém, certamente pautado numa observação crítica de como o amor foi e ainda é reduzido à propriedade e ao pertencimento nos dias de hoje.

Esse reducionismo “Lockeano” das relações amorosas talvez seja uma das causas de tantas frustrações. Restringir-se a um modelo de relacionamento diante de uma infinidade de conformações possíveis é uma tentativa vã de se adequar a um padrão que naturalmente muitas pessoas não se encaixam.

O amor e a Psicanálise

A psicanalista Regina Lins Navarro, especialista em sexualidade humana, escreveu em “O Livro do Amor” que a bissexualidade e as relações livres serão predominantes no futuro. Ao considerar a fluidez de gênero e as inúmeras possibilidades de experiências sexuais, a autora faz um recorte histórico baseado em uma pesquisa de aproximadamente cinco anos, e defende a aceitação da sua natureza, seja num relacionamento mono ou poligâmico.

“Os modelos tradicionais de amor e sexo não estão dando mais respostas satisfatórias e isso abre um espaço para cada um escolher sua forma de viver (…) Na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sexo bem melhor do que vivem hoje.”

No trecho acima extraído de uma entrevista ao site da UOL, Regina traça um perfil do que ela considera relações fadadas ao fracasso (essa conclusão foi obtida pelo autor desse texto numa análise do pensamento da psicanalista em questão). Ela propõe que a sociedade encontre alternativas que possam convergir em respeito ao outro e em respeito às próprias necessidades, para que no futuro possamos atenuar a força do espírito de propriedade que circunda os relacionamentos.

Este ainda é um assunto que gera polêmica, afinal estamos lidando com uma construção religiosa alicerçada em monogamia, matrimônio, casa, filhos e uma casa de campo. É certo que a sociedade vive em constante mudança, porém, o que ainda se percebe é a ideia fantástica do “felizes para sempre”.

A cada um compete decidir o que te faz bem, sabendo fazer a distinção do que surge do âmago do seu ser e o que está sendo influenciado por pressões externas. É uma necessidade urgente que saibamos utilizar a praticidade tecnológica ao nosso favor e que consigamos manter relações saudáveis com as pessoas que nos cercam.

Afinal, o “direito à propriedade” defendido pelo filósofo inglês John Locke, certamente não fazia menção às maravilhas do sagrado matrimônio.


Ensaio Fotográfico - Rodrigo. Ensaio sensual masculino e nu artístico em São Paulo.Rodrigo Correia – Colunista da Sereno Fotografia

Neurocientista em formação, é um verdadeiro aficionado por temas que permeiam a psicologia e a sexualidade humanas. Descobriu na meditação uma maneira de encontrar a felicidade plena. Seus interesses em filosofia, cinema e literatura tentam sanar (ou estimular) as suas próprias inquietações. Leão com ascendente em Leão, aguarda ansiosamente pela chegada dos irmãos de outro planeta.

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